Conversamos com exclusividade com o vice-presidente de finanças e relações com investidores da Marfrig Global Foods, Marco Spada, para conhecer os planos da empresa voltados para o comércio sustentável

Marco Spada diretor de relações com investidores.JPGA Marfrig – segunda maior produtora mundial de carne bovina – registrou no segundo trimestre deste ano um EBITDA (lucro operacional) de R$ 1,057 bilhão. O valor reverte o indicador negativo do mesmo período do ano passado de R$ 185 milhões. Não à toa, as ações (MRFG3) da empresa mais do que dobraram de preço até agora.

Com operações na América do Sul e América do Norte, a Marfrig reforçou seus trabalhos voltados para o comércio sustentável. Exemplo disso é o programa para promover a oferta de matéria-prima de origem sustentável desde a produção de bezerros nos estados do Mato Grosso, Pará e Rondônia – principais regiões onde a companhia tem fábricas – para atrair mais investidores.

A Marfrig ainda lançou em setembro em parceria um hambúrguer à base de proteína vegetal para a rede de fast-food Burger King.

Outra iniciativa da maior produtora de hambúrguer do mundo nesse sentido é ter um carimbo sustentável com a emissão de US$ 500 milhões em bônus sustentável de transição.

Durante a entrevista para o KB, Spada contou que neste semestre a Marfrig começará a produzir a primeira carne do Brasil com o selo de Carbono Zero. O projeto é uma parceria com a Embrapa para neutralizar a emissão de carbono a partir da integração dos pastos com a floresta.

Acompanhe a entrevista para entender melhor a importância desse setor na receita da multinacional e as perspectivas da empresa.

Qual é a expectativa de participação da linha de produtos de proteína vegetal na receita líquida total da empresa?

É um produto novo, de nicho. Enxergamos que essa linha de origem vegetal tem apresentado um crescimento muito forte. Estamos em conversas com a ADM [Archer Daniels Midland Company – uma das maiores fornecedoras de ingredientes para produção de alimentos à base de proteína vegetal no Brasil] desde 2016 para desenvolver esse tipo de produto, mas achamos que fazia sentido lançar ele agora.

Em termos de percentual da receita, é cedo para fazer qualquer estimativa, mas a linha de hambúrguer da Marfrig tende a atingir 10% da receita da companhia neste ano. A linha vegetal, portanto, será inicialmente apenas uma pequena fração desse percentual.

O consumo chinês de carne bovina anual por habitante é de 4kg. Já o de carne suína chega a 48kg. Com a gripe suína, há uma expectativa de quanto pode crescer o consumo de carne bovina na China?

É muito difícil fazer qualquer previsão a respeito, mas apenas 1 kg no aumento do consumo per capta na China representaria 80% do volume de exportações de carne bovina brasileira. Portanto, qualquer aumento marginal no consumo chinês pode ter um impacto muito grande no total das exportações.

O consumo de porco na China é cultural. Assim como no interior do Brasil criamos galinha caipira, as pessoas na China criam porcos no quintal de casa. Por causa disso, fica difícil estabelecer um controle sanitário efetivo, o que pode ter ajudado o alastramento da doença.

A Marfrig teve duas novas plantas habilitadas para exportar para à China. Qual é o impacto na receita?

Esperamos um impacto relevante, uma vez que essas duas plantas: Várzea Grande Tangará da Serra, ambas localizadas no Mato Grosso, que foram habilitadas são as maiores que temos no Brasil. Esperamos adicionar quase quatro mil cabeças de boi por dia para China.

Qual é o impacto do trade war entre Estados Unidos e China para a Marfrig?

A nossa operação nos Estados Unidos não tem impacto nenhum em relação à China porque não exportamos de lá para a China, mas sim basicamente para o Japão e a Coréia do Sul. De maneira geral, isso acaba sendo positivo. A guerra comercial diminui a oferta de outros exportadores de carne, o que favorece o comércio da América do Sul onde estamos instalados.

O guidance divulgado em maio considera o dólar a R$ 3,90. Como a alta do dólar impacta o EBITDA e a receita?

A nossa receita é 90% dolarizada e quanto maior a taxa cambial maior a receita. O EBITDA, por sua vez, tende a acompanhar. O gado não é 100% atrelado ao câmbio. Mas, indiretamente, uma subida do câmbio leva a um aumento do preço do boi – também porque o produtor de gado percebe que há maior espaço para subir seu preço. É natural algum aumento de custo por conta do dólar mais alto, mas o efeito líquido é positivo.

A Marfrig emitiu dívida a taxa de 7% ao ano e recomprou bonds com taxas mais altas. Existe uma meta de dívida líquida/ EBITDA?

Estabelecemos em 2013 a meta de atingir duas vezes e meia dívida líquida/EBITDA no final de 2018. Cumprimos isso no ano passado e não estabelecemos nova meta, mas o que temos buscado é trabalhar ao redor desse nível de alavancagem. Somos uma empresa atuante em um setor tipicamente alavancado.

Nós entendemos que o nível atual [dívida líquida/EBITDA] é muito mais salutar e está se mostrando adequado para possibilitar uma geração de fluxo de caixa livre muito maior do que existia no passado. Com o novo nível de geração de caixa atingido, a tendência é melhorar e entrarmos num ciclo virtuoso: mais caixa, reduz endividamento e possibilita liquidar as dívidas mais caras que pesam menos no fluxo de caixa geral.

O nível de alavancagem de dois e meio tende a diminuir e a expectativa é que termine 2019 em um nível inferior ao do ano passado.

Com um nível de endividamento mais baixo, a percepção de risco da empresa perante o mercado diminui. Por isso, nossa taxa de captação está caindo, o que diminui o serviço da dívida e impacta diretamente no lucro líquido da empresa.

A empresa pretende desenvolver novos produtos?

Além da carne vegetal, ainda neste ano lançaremos a primeira carne para venda com selo de carbono zero. Na mesma linha de sustentabilidade, nós seremos a única companhia a ter um selo de emissão líquida de carbono nula na produção. Respeitando os critérios da metodologia desenvolvida pela Embrapa, nós vamos compensar a emissão de gás carbônico na criação do boi com a plantação de árvores e florestas nas fazendas de pecuária. A companhia deve ser a única empresa em 2019 autorizada a emitir esse selo.

 

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8 pensamentos

    1. Oi Marcio,

      Se você olhar o múltiplo tradicional preço/lucro e desconsiderar o lucro não recorrente, a empresa parece cara .
      Mas se você olhar o EV/EBITDA, que é mais utilizado para empresa do setor, a Marfrig ainda negocia a 4,5 vezes. Um nível historicamente e menor do que seus principais concorrentes.
      Isso sem falar do impacto da gripe suína, que deve ser sentida nos próximos balanços, e a queda dos gastos com serviço da dívida.

      Abraço.

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