KB Investimentos entrevista: Ferbasa

Conversamos com exclusividade com o gerente de Relações com Investidores da Ferbasa, Carlos Henrique Temporal, para entender a alta de 536% do lucro líquido da empresa

Os resultados mais recentes da Ferbasa – única produtora de ferrocromo das Américas –  levaram FESA4 a entrar na Carteira KB.  Para se ter uma ideia, o lucro líquido saltou de R$12,6 milhões para R$80,1 milhões neste primeiro trimestre, se comparado ao mesmo período do ano passado.

Carlos Henrique Temporal F01A valorização do preço do ferrocromo –  matéria-prima para a fabricação de aços inoxidáveis, utilizada pela construção civil e por indústrias de diferentes segmentos, como de bens de consumo –  foi um dos indicadores que contribuíram para essa performance. Nos primeiros três meses de 2016, o produto era vendido a US$c 92/lb.Cr, e neste ano passou para US$c 154/lb.Cr.

Relativamente pouco utilizado no Brasil, os aços inoxidáveis  têm grande potencial de mercado. Basta comparar com os asiáticos. Enquanto o consumo (quilos/per capita por ano) dos brasileiros gira em torno de 2, a dos chineses que vivem na região rural chega a 3, na Europa a 15 e em Cingapura a 25.

Somando-se a essa perspectiva, a Ferbasa investe em ações para aumentar a produtividade, como: troca e aquisição de novos equipamentos, tecnologias e de um parque de geração de energia eólica para que a companhia não fique refém das oscilações do preço da energia elétrica.

A Ferbasa ainda produz ligas de ferrosilício, sendo 85% com padrão standard, que são destinadas ao setor siderúrgico para a fabricação de aço bruto comum e os outros 15% com padrão HP (high purity), que são usados para a produção de aço silicioso. Este tipo mais refinado, por sinal, é utilizado na fabricação do motor do carro híbrido Prius da Toyota.

O planejamento estratégico da Ferbasa foi revisto em dezembro do ano passado. Anteriormente, a meta era ser uma empresa globalmente competitiva em ferroligas. Com a revisão, o objetivo atual é ser uma companhia globalmente competitiva em ferroligas, minério de cromo e energia renovável.

Para entender melhor a atividade e as perspectivas da corporação, o KB Investimentos conversou com exclusividade com o gerente de Relações com Investidores da Ferbasa, Carlos Henrique Temporal. 

Qual é a expectativa para a evolução do consumo de aço inoxidável no Brasil?

É uma indústria com grande potencial. A ABINOX (Associação Brasileira do Aço Inoxidável) fomenta a utilização e aplicação do produto no mercado brasileiro, visando incrementar seu consumo.

O aço inox é um produto extremamente elástico a preço. Por exemplo: se você pretende fazer uma coluna de aço inox, numa recessão, você substitui por aço comum. Com a retomada da economia, a expectativa é de aumento do consumo no Brasil.

Hoje, a Ferbasa está bem posicionada para o crescimento da demanda, pois detém quase a totalidade do mercado de ferrocromo, produto indispensável à produção de inox, no país.

No release, a empresa diz que reduziu seus custos por causa da substituição de biorredutor por coque. O método deve continuar?

A produção de ligas precisa de redutores para agir na oxirredução dentro dos fornos, transformando elementos óxidos em elementos metálicos. O redutor mais utilizado no mundo é o carbono, produzido a partir do coque (carvão mineral) ou do biorredutor (carvão vegetal).

A Ferbasa utiliza o biorredutor na produção de ferrosilício. Na produção de ferrocromo, tradicionalmente, é usado coque, mas é possível utilizar até 20% de biorredutor. Como a Ferbasa dispõe de fazendas de produção do biorredutor e este é um insumo mais barato, a empresa vem promovendo a substituição de forma a reduzir custos.

Quais ações a companhia têm tomado nesse sentido (para reduzir custos de produção)?

Ferbasa - Metalurgia

Utilização de biorredutor também na produção de ferrocromo. Em 2014, iniciou-se a mudança de tecnologia de produção de biorredutor. Ao custo de R$ 66 milhões, substituímos 400 fornos pequenos (20 a 40 metros cúbicos) operados manualmente por 88 fornos grandes mecanizados (400 a 700 metros cúbicos). O octagésimo sexto forno está em produção no momento, e os últimos dois em fase de final da construção. Essa iniciativa diminui drasticamente os custos de produção de biorredutor e, consequentemente, de ferrosilício.

A aquisição de equipamentos de raio-X. O minério de cromo extraído em nossas minas se divide em concentrado – areia de menor valor agregado – e hard lump – uma pedra de poucos centímetros, mais valiosa. O processo de seleção antigamente era manual. A compra de equipamentos de raio X permitiu mecanizar essa seleção, aumentando a eficiência de 75% para mais de 90%. Esse aumento de eficiência permite produzir a mesma quantidade de liga utilizando menos ROM (Run of Mine), preservando assim as reservas da companhia e reduzindo os custos de produção do ferrocromo, já que o minério chega a representar 40% do custo total desta liga. Hoje, temos dois equipamentos de raio X em operação (comprados em 2015 e 2016). Em julho deste ano, mais duas máquinas serão incorporadas aos ativos da companhia.

A participação do item “Demais produtos” na receita da companhia se multiplicou nos últimos anos. Este segmento da companhia apresenta a melhor margem de lucro bruta da empresa. O que explica esse aumento de participação e qual a expectativa para os próximos anos?

Hoje, a empresa está dedicada a fazer exportações regulares de minério de cromo. Em dezembro de 2016 e fevereiro desse ano, a Ferbasa exportou para a China. Essas vendas são computadas no item demais produtos da companhia.

Qual é a estratégia da companhia para a gestão dos custos de energia?

Em 2015, quando da última renovação, o preço da energia subiu fortemente e o contrato com a CHESF (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) foi renovado até 2037, sem possibilidade de extensão, com quantidade de energia contratada 30% menor e 22% mais cara.  O contrato atual prevê o fornecimento anual de 150 MWh até 2032 e reduções gradativas de volume até zerar em 2037. Em função disso, a Ferbasa concretizou alguns contratos de energia no mercado livre para complementar a perda.

Em 2016, a companhia tinha contratado 200 MWh. Apenas os 150 MWh com a CHESF foram utilizados na produção e os outros 50 MWh tiveram que ser vendidos no mercado com prejuízo.

Neste ano, a Ferbasa contratou 215 MWh, sendo que utilizará os 150 MWh da CHESF e mais 15 MWh adquiridos de outras geradoras no mercado livre. Os outros 50 MWh serão novamente vendidos no mercado. Mas, dessa vez, acreditamos que com lucro para a empresa.

Para diminuir a exposição da companhia à oferta de energia, decidimos investir na geração de energia. Após estudos de viabilidade técnica e financeira, a opção da Ferbasa foi por dois projetos brownfields, que já estão em operação, de energia eólica. Hoje, esses projetos tem um PPA (purchase power agreement) de 20 anos (iniciados em 2014) para vender a produção para o governo.

Como a necessidade de energia da empresa hoje é satisfeita pela CHESF e outras geradoras, a compra de projeto de geração eólica representa a compra de fluxo de caixa para a companhia. Em 2034, quando termina o contrato de venda de energia eólica para o governo, a Ferbasa optará por vender energia no mercado ou utilizá-la na produção. No ano seguinte, quando termina o contrato com a CHESF, a energia eólica poderá ser usada para suprir a necessidade da companhia.

Este é o primeiro passo, para desenvolver a curva de aprendizado no novo negócio, sendo possível ainda que a Ferbasa compre projetos greenfield no futuro para aumentar a produção de energia.

Qual é a expectativa de payout da companhia para os próximos anos? Há a intenção de promover um novo programa de recompra de ações? Qual é a expectativa de CAPEX da Ferbasa para os próximos anos?

O histórico de CAPEX da companhia é de R$ 100 milhões/ano. Por conta do fim do projeto de mudança de tecnologia de produção de biorredutor, esse número deve ficar abaixo de R$ 90 milhões neste ano. Esses números desconsideram os projetos de energia.

Nós terminamos no ano passado um programa de recompra de ações. Temos em tesouraria, 3,2 milhões de ações, compradas a um preço médio de R$ 8,07. Ainda não há expectativa de venda dessas ações nem de reabertura de um novo programa de recompra.

Por conta das incertezas da energia, a Ferbasa sempre teve uma estrutura de capital muito conservadora. Hoje a companhia detém quase 400 milhões em caixa. A partir de 2015, quando a companhia passou a ter um horizonte mais claro quanto à questão de energia, o payout e dividend yield da companhia aumentou.

Hoje, existe uma proposta da Diretoria de Relações com Investidores sendo avaliada pelo Conselho de Administração para aumentar a frequência de pagamentos de dividendos.  A ideia é que a companhia distribua trimestralmente seus resultados. A expectativa é que a iniciativa seja aprovada, bem aceita pelos acionistas minoritários e gere maior liquidez das ações no mercado.

A companhia tem intenção de aumentar o nível de tag along, migrando para o Nível 2 ou Novo Mercado?

Não. A questão do tag along só é relevante para os acionistas minoritário em caso de mudança de controle acionário, o que não deve ocorrer na companhia. Ou pelo menos, não observamos sinalizações neste sentido. A Ferbasa é um caso único na Bovespa em que uma fundação é sócia majoritária de uma empresa. A Fundação José Carvalho possui sete escolas e um colégio técnico, localizados na Bahia, que atendem gratuitamente 4 mil alunos. Como a fundação depende dos dividendos recebidos para se manter, não há a mínima intenção de perder o controle acionário.

No dia 18 de maio – com a notícia dos áudios da JBS envolvendo o presidente – o dólar disparou, levando a uma alta das ações de setores tipicamente exportadores com receita em dólar, enquanto o resto do mercado despencava. Neste dia, a FESA4 – ação mais negociada da Ferbasa – caiu 4,1%. O que explica esse comportamento atípico, dado que a Ferbasa tem sua receita totalmente atrelada à moeda americana?

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Foi uma leitura equivocada dos fundamentos. Não existe hoje uma leitura correta da empresa pelo mercado. Nós somos uma empresa 100% dolarizada e temos custos em reais. Este é o trabalho de equipe de RI (Relações com Investidores), assim como das casas de análises de ações e corretoras: fazer com que o mercado entenda o case da empresa, seus respectivos fundamentos e drives de mercado.

Dado que o todo o faturamento da Ferbasa depende do dólar, por que a empresa faz hedge apenas de até 30% de suas receitas?

Há uma relação negativa entre preço de commodities e dólar. O aumento da moeda americana tende a ser, em parte, compensado pela queda de preço desses produtos e vice-versa. Como os produtos vendidos pela Ferbasa têm um “comportamento” de commodities, essa relação é valida. A companhia calculou um coeficiente de correlação de aproximadamente  -0,69 entre esses ativos.

Dado que em torno de 70% da variação da receita devido ao dólar tende a ser compensada pela variação dos preços dos produtos vendidos pela Ferbasa, a companhia entendeu que há necessidade de proteger apenas os outros 30% através de hedge. A empresa utiliza NDF (Non Deliverable Forward), ou Contrato a Termo de Moeda sem Entrega Física, para travar o câmbio dos produtos vendidos.

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KB Investimentos entrevista: CSU

Conversamos com exclusividade com o CFO da empresa, Ricardo Ribeiro Leite, para comentar os resultados da companhia que fizeram a ação CARD3 dobrar de preço em 2017

CSU Ricardo Leite

O boom das ações da CSU – empresa de prestação de serviços de alta tecnologia – chamou a atenção do mercado. Vendida no primeiro dia de janeiro a R$ 4,91, os papéis CARD3 mais do que dobraram de valor em março. Hoje acumulam alta de quase 100% no ano.

As diferentes facetas da CSU foram fundamentais para esse sucesso. Fundada em 1992, a companhia conseguiu se reinventar em momentos delicados. Inclusive quando viu suas ações derreterem no mercado e seu lucro líquido despencar mais de 90%, em 2013, com a saída de um de seus principais clientes, o HSBC.

A queda de resultados levou a CSU a criar novas frentes de negócios – para não depender exclusivamente de um único setor – e a oferecer soluções completas aos seus clientes com os serviços prestados pela CSU CardSystem, CSU Contact, CSU MarketSystem e CSU ITS.

A fórmula deu certo. Com a reestruturação, o lucro da CSU chegou a R$ 34,9 milhões no ano passado. Os bons resultados conquistados começaram a se refletir no mercado de ações e a CARD3 deixou de ser figurante para se tornar protagonista da Bovespa.

Ponto para o KB Investimentos ao selecionar o ativo para compor a Carteira KB. Graças ao bom desempenho da CARD3 e nossas outras ações, tivemos até agora um rendimento de 25,88% no acumulado do ano contra apenas 7,9% do índice Ibovespa.

Para comentar os resultados e saber quais serão os próximos passos da companhia, o KB Investimentos conversou com exclusividade com o CFO (Chief Financial Officer) da CSU, Ricardo Ribeiro Leite. 

As ações da CSU mais do que dobraram de preço neste ano. Vocês ficaram surpresos com o resultado? A reestruturação e o aumento do lucro da empresa trouxeram mais segurança para os investidores?

Foi uma satisfação, mas não uma surpresa. A gente vem apresentando, por oito ou nove trimestres consecutivos, resultados bastante favoráveis. Os múltiplos em termos de preço no mercado versus os resultados da companhia estavam se distanciando mais e mais. Foi uma reação tardia e entendemos que não se esgota por aqui, ou seja, os múltiplos da companhia ainda não estão alinhados com os peers dos mercados nacional e internacional nos setores em que a CSU opera.

Além disso, percebemos um momento desfavorável a investidores estrangeiros e institucionais locais e decidimos dar atenção a outros segmentos do mercado – pessoas físicas e clubes de investimentos – com apresentações setoriais e regionais. Vimos que o crescimento recente dos preços das ações e do volume negociado está ligado a estes segmentos. Correlacionado a isso, a Sul América diminuiu a participação na companhia, o que possibilitou um aumento da liquidez das ações e a entrada de novos investidores.

No release do último trimestre de 2016, é destacado que o uso da OPTe+, como plataforma de resgate, mais do que dobrou em dois anos.  Qual o impacto da OPTe+ na melhora dos resultados da companhia?

Os setores que nós não apresentamos informações com maiores detalhes ainda não atingiram relevância dentro da companhia. No caso da Marketsystem, passamos algumas informações para verificar a tendência, mostrar a evolução da Opte+ e outras alternativas de resgates. O mesmo vale para a unidade CSU ITS.

O lucro bruto da empresa cresceu R$ 18 milhões de 2015 para 2016. Nesse mesmo período, a conta “Custos dos Prêmios Entregues” caiu de R$ 41,8 milhões para R$ 21,1 milhões, variação maior até que o aumento do lucro. Qual o motivo dessa redução pela metade desse custo? E qual é a expectativa para esse item nos próximos anos?

Essa é uma questão de modelagem de negócios com os clientes de uma maneira diferente. Por exemplo, um contrato com um cliente que antes tratávamos como receitas e custos de serviços, por causa de uma alteração na contratação, deixamos de faturar como prestação de serviço. O valor deixa de ser receita e deixa de ser custo e transita no balanço da companhia apenas como nota de débito. É uma questão de alteração no registro contábil. Essa redução de custos dos prêmios entregues teve um impacto em termos de lucro absolutamente zero.

A CSU Contact e a CSU CardSystem têm receitas em níveis semelhantes e lucros muito diferentes. A margem EBITDA da Contact em 2016 foi doze vezes menor que a da CardSystem. Até que ponto a Contact é importante para oferecer uma solução completa e integrada aos seus clientes?

O mercado de contact center é muito concorrido, o que torna mais difícil conseguir uma diferenciação que permita maiores margens.  A CSU Contact apresenta pontos positivos ao possibilitar a diluição de custos operacionais e complementar as atividades da Marketsystem, Cardsystem e ITS, que têm necessidade de atendimento ao cliente. Ao trazer clientes novos para a empresa, cria-se um potencial para que estes se tornem usuários dos outros serviços da CSU. Portanto, independentemente do patamar bem abaixo de rentabilidade, a CSU Contact deve permanecer como um core business da empresa.

A CSU prevê investimentos da ordem de R$ 45 milhões para 2017. A necessidade de investimento para os próximos anos tende a se manter nesse nível?

O nível de investimento da companhia está muito atrelado às novas contratações comerciais. Cada contrato adicional implica investimento inicial. Um bom plano comercial no ano significa capex mais acentuado. Como em 2014 e 2015 não houve crescimento forte, os orçamentos de capital aprovados não foram executados. Em 2017, nosso desejo é que esse orçamento se torne realidade, mas vai depender do sucesso comercial da CSU.

Qual a expectativa de distribuição de resultados para os próximos anos?

Quanto aos dividendos, buscaremos uma política agressiva girando em torno do percentual de 35% a 40% do resultado líquido anual.

Neste ano a CSU anunciou que fechou uma parceria com um novo cliente na área de processamento de cartões. Já é possível divulgar o nome, o setor ou o número de cartões desse novo cliente?

É uma instituição financeira de médio porte com foco regional. O acordo significa o lançamento do projeto. Não tem um portfólio já existente, como o Banco Mercantil do Brasil, que veio com seus 900 mil cartões. Nós teremos a satisfação de emitir o primeiro cartão desse novo cliente. Há potencial para várias centenas de milhares de cartões.