Fama, Dynamo. Poucos são os fundos que podem dizer que já chegaram à Cota 50 – ou seja, que conseguiram aumentar em 50 vezes o valor inicial investido. O investidor Christian Suppo Bojlesen recentemente entrou para este seleto time.

Formado em administração de empresas com ênfase em Finanças pela Colorado State University (Estados Unidos), Christian não trabalha no centro financeiro de São Paulo. Longe disso. Por muitos anos, os investimentos não foram sua atividade principal. Christian trabalhava na administração de uma empresa e sempre participou de diversas audiências públicas para discutir, principalmente, projetos relacionados ao Plano Diretor e Zoneamento da capital paulista.

O primeiro aporte no Clube em que Christian administrava foi feito há 12 anos e meio. Semanas antes de uma forte queda que levou o Ibovespa dos 73.516 para 29.435 pontos em apenas cinco meses. Com uma estratégia incialmente long-only (apenas posições compradas), sem alavancagem e focado em value investing e small caps, o Clube atravessou os mais diversos cenários econômicos até chegar à Cota 50.

A trajetória do Christian nos mostra como alguém fora dos empregos tradicionais do mercado financeiro pode, com dedicação e disciplina, atingir o sucesso no mundo dos investimentos.

Por isso, o KB bateu um papo com ele para saber quais são as principais lições que ficaram com seus erros e acertos.

Quando você começou a investir?

Quando fazia faculdade, em 1995, passei por diversos departamentos, como política e filosofia. No entanto, acabei indo para economia e posteriormente pra Administração e Finanças. Comecei a investir ainda nessa época.  

O que mudou de lá para cá?

Antes, para participar do mercado você tinha que estar inserido numa asset ou banco e o acesso à informação era muito difícil e desigual. Para se ter uma ideia, precisávamos escrever para as companhias para que elas nos mandassem pelo correio seus relatórios e as publicações mais especializadas como Value Line eram muito caras e pouco acessíveis. Hoje abrimos o computador e pegamos os dados mastigados na internet, opiniões de investidores que seguem uma empresa, vemos o que funcionários e clientes pensam da empresa em sites como o Glassdoor e Reclame Aqui.

Fazendo uma analogia ao poker, antigamente para se ter sucesso profissionalmente era necessário estar inserido no eixo Las Vegas ou Atlantic City, que concentrava os maiores poker rooms, os melhores jogos e a troca de informações sobre como jogar melhor. Como consequência os melhores jogadores se concentravam lá por uma restrição geográfica. Com o poker online essa barreira caiu. Milhões de novos jogadores surgiram no mundo todo, a informação se disseminou, a forma de jogar se evoluiu rapidamente e hoje os novos talentos dominam o circuito.

Não tenho dúvida que veremos novos talentos fora dos eixos tradicionais da Faria Lima e Leblon no mercado. Já dá pra ver alguns.

Qual é o seu estilo de investidor?

Até 2017, quando ainda tinha outro emprego, usava uma estratégia bottom-up, do tipo comprar e esquecer. Hoje, faço algumas operações como vender índice (pra controlar exposição) e long-short (comprado e vendido),  para aproveitar o maior potencial das minhas ações em relação ao índice Ibovespa.

Eu não penso: o nível atual do Ibovespa de 125 mil pontos está alto, então vou me proteger. Mas quando vejo um movimento relevante tento me proteger. Foi o que fiz quando comecei a perceber que o coronavírus poderia chegar ao Brasil. Desde janeiro, estava lendo todo o material que saia lá fora, mas a ficha caiu no meio do carnaval. Por isso, dei uma boa travada na carteira, vendendo índice, que mesmo tardia ajudou bastante na recuperação posterior.

Além disso, nós nunca alavancamos a carteira. Como costumo focar em papéis menos líquidos, que são mais sujeitos à volatilidade, eu não quero ter uma camada adicional de risco através de alavancagem.

De que maneira suas experiências fora do mercado financeiro, por exemplo, suas participações em audiências sobre o Plano Diretor, ajudaram na sua performance como investidor?

As experiências ajudam e muito. Warren Buffett e Charlie Munger [presidente e vice-presidente, respectivamente, da empresa de investimentos Berkshire Hathaway] dizem que é importante ter interesse em outras áreas. Concordo. Fica mais fácil entender a dinâmica de uma indústria.

Tive a oportunidade de conversar com uma dezena de construtoras e associações de moradores e passei a entender a dificuldade de aprovar um projeto e os principais gargalos. A incorporadora, por exemplo, pode ter problema se estiver pegando um terreno que tem um passivo ambiental ou está no meio de um bairro com conflitos com associações de moradores.

Qualquer conhecimento que se consiga ter em outra área nos ajuda a investir melhor. Tem até um livro que fez muito sucesso ao traçar os paralelos do poker e o mundo dos investimentos. O poker tem o racional, mas tem a sorte. O mesmo ocorre com o investimento: podemos fazer um investimento errado e dar certo e fazer tudo certo e o investimento ser errado por algum evento adverso, como a pandemia por exemplo. É o que chamam de não ser orientado pelo resultado, mas pelo processo decisório.

Por isso, acho muito importante olhar para trás e ver o que aconteceu depois que você vendeu a ação. Se a empresa quebrou, penso: isso poderia ter acontecido comigo. Então, eu não estava tão certo assim.

Você pode nos contar um acerto e um erro nos investimentos? Qual foi o racional que o levou a comprar essas ações? E quais são as lições que ficaram?

É até engraçado pois quando ouvimos essas perguntas em podcasts, sempre vem uma explicação de um case que não deu certo, mas sempre terminando com algo do tipo “mas no final, conseguimos sair da posição no zero a zero”. É sempre difícil admitir erros, mas eu não tenho problema com isso. Já cometi erros sérios que resultaram em perdas relevantes.

Em 2007, tinha muito essa tese de que as indústrias estavam indo para o varejo onde capturariam mais valor e o foco passou a ser esse. Acertamos com Hering. Mas erramos em Karsten.

O que pensávamos é que a Karsten era uma empresa muito boa no setor e tinha contratos que mostravam isso como os pra produzir produtos da Disney. Olhando em retrospecto a tese não fazia sentido porque a indústria não gerava valor. Ela sempre estava reinvestindo em capex. Havia um conflito de canal de vendas: a rede de varejistas não achava bom ver o fabricante indo diretor para o usuário final. E ela ainda foi pega na crise dos derivativos.

Erramos feio também em Viver, uma incorporadora. Em teoria, se desse tudo errado, a empresa fechasse, vendesse tudo e considerando o que tinha em estoque com desconto, ainda assim ela estaria sendo negociada a 30-40% do que deveria. Mas em incorporação você aprende que corrigir o rumo é difícil, pois o ciclo é longo e os erros do passado continuam a se repetir por muito tempo. Ela fez uma expansão geográfica através de empreiteiros parceiros, mandava dinheiro sem nem fazer acompanhamento visual das obras, o que resultou em fraude e estouro de custo de obras. Então, surgiu a figura dos distratos e, quando se somava o resultado de todos os problemas, a margem de segurança que se imaginava nunca esteve lá.

A Hering foi um acerto gigante. Como não tínhamos fonte de informação além das reuniões da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), costumava ir para os estados e ficava por uma semana visitando as empresas. Foi o que fiz em Santa Catarina. Fui visitar a Hering logo depois que ela renegociou uma dívida pesada. Fazia anos que não ia um analista querendo conhecer a empresa, ela estava totalmente marginalizada. Foi uma das grandes surpresas quando cheguei e vi toda a diretoria e o superintendente fabril para me explicar tudo e fazer um tour de dia inteiro.

Quais livros você indicaria para os investidores?

Achei muito bom o último memo do Howard Marks em que ele conta tudo o que aprendeu com seu filho sobre growth stocks. Acho fantástico a capacidade dele de continuar aprendendo formas diferentes de pensar mesmo tendo tido tanto sucesso com o estilo dele. É como se diz: “para um homem com martelo, todo problema se parece com um prego”. É importante adquirir mais ferramentas.

O livro The Outsiders: Eight Unconventional CEOs and Their Radically Rational Blueprint for Success, do William Thorndike, conta a história de diversos CEOs que tiveram resultados extraordinários e nos ajuda a entender a importância da alocação de capital para a geração de valor.

Por fim, tem um livro do Peter Bevelin, Seeking Wisdom: From Darwin to Munger, que fala na jornada pelo conhecimento, indo desde modelos mentais, a biologia, psicologia e estatística.

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