Lâmpada

Quem nunca ouviu:

“A ação está caindo, então esse é o momento de comprá-la”

ou

“O papel subiu muito, acho que não vou entrar porque não tem como aumentar mais”

Essas e muitas outras frases ditas como verdades absolutas são as coisas mais tolas – e perigosas – que já ouvimos!

Foi lendo o livro One Up On Wall Street, de Peter Lynch, que tive a ideia de escrever sobre esse tema.  No capítulo The Twelve Siliest (and Most Dangerous) Things Peolple Say About Stock Prices, me recordei de momentos marcantes da minha “carreira” de investidor. Para quase todas as situações citadas, consegui encontrar uma correspondente pela qual passei.

A trajetória de investidores é invariavelmente cheia de erros e acertos. O importante é sempre aprender com essas experiências.

Esse é o primeiro texto de uma série que publicarei no KB com situações que caíram como uma luva nas frases de Lynch.

Você sempre sabe quando uma ação atinge seu piso – Helbor (HBOR3)

Estávamos em 2013. O setor de construção civil vivia um dos maiores booms em décadas e duas empresas, na minha opinião, se destacavam frente as demais: Helbor e EZTEC.

A primeira tinha uma áurea de companhia administrada por profissionais de mercado financeiro e, diferentemente da EZTEC, sempre trabalhou com um pouco de dívida. No entanto, a Helbor apresentava ROE (Retorno Sobre o Patrimônio Líquido) igual ou até maior do que a EZTEC. Ambas tinham seu foco no mercado paulista, considerado o mais lucrativo.

Eu – que sou acionista da EZTEC desde 2009 – comecei a prestar ainda mais atenção na HBOR3 em meados daquele ano quando o preço da ação começou a cair. Seria o momento de entrar?

Esperei por mais um resultado trimestral da empresa e nada mudou: os lucros continuavam aumentando.

Por alguns meses, eu pensei: “não é possível que a ação caia mais com esses resultados que só melhoram”.

Pois bem, os próximos trimestres vieram. Os resultados pioraram monotonicamente período a período. A cada nova queda, vinha o pensamento: “não é possível que caia mais do que isso”.

E caiu:

Desde o topo, a ação perdeu 84% do seu preço em pouco mais de dois anos.

Por sorte, optei por continuar investindo apenas em EZTEC no setor de construção civil, mas a lição foi aprendida:

ponto de exclamação  “Não dá para acertar quando a ação chegou ao piso”.

Já subiu muito, como poderia subir ainda mais? – Magazine Luiza (MGLU3)

Provavelmente, essa é a história mais familiar para os investidores. Após um IPO sucedido por uma queda nos preços das ações, a empresa virou o ano de 2015 para 2016, no seguinte cenário:

Prejuízo líquido de R$ 50 milhões nos últimos doze meses. Dívida líquida pouco maior do que o patrimônio. Receitas em leve queda.

Por que um investidor deveria olhar para uma empresa como essa?

Essa era a pergunta que eu e muitos se faziam no momento. Como o tempo disponível é escasso, é natural que o investidor se concentre apenas em alguns casos de empresas. A Magazine Luiza não era um deles.

Em 2016, a empresa começou a recuperação: os trimestres de prejuízo ficaram para trás: R$ 5 milhões no primeiro trimestre, R$ 10 milhões no segundo, R$ 25 milhões e R$ 46 milhões no terceiro e quarto.

Na virada de 2016 para 2017, o caso de turnaround já era um sucesso: jornais e revistas de finanças publicavam sobre Magazine Luiza. Como a empresa havia se transformado e como havia atingido os quase inacreditáveis 500% de valorização no ano.

Novamente, eu, como investidor pessoa física, pensei: já subiu absurdamente em 2016, é óbvio que não vai valorizar mais nesse ano. Não vou nem perder meu tempo tentando entender o caso da empresa.

Pois bem, estamos em dezembro de 2017 e a companhia valorizou outros 429%!

Se no começo de 2016, era natural ficar de fora de uma empresa endividada com prejuízos, no começo deste ano minha decisão de nem considerar o papel se deveu exclusivamente ao:

ponto de exclamação “Já subiu muito e não é um bom momento para entrar”.

Apenas R$ 1 por ação: o que eu poderia perder?  – Eternit (ETER3)

Esta é uma frase dita – normalmente – por pessoas que nunca investiram em ações.

Por algum motivo, elas pensam que um ativo está caro ou barato olhando apenas para o valor unitário de uma ação.

Se esquecem (ou nunca souberam) que o importante é saber quanto custa a empresa e não a ação.

Qual é a quantidade de ações da empresa vezes o número de ações? Esta é a única variável do investidor interessado em saber quanto se está pagando para ser acionista da companhia.

Outra característica importante, 20% de queda no preço são sempre 20% de queda. Não importa se a ação vale R$ 1 ou R$ 100. A queda é rigorosamente a mesma para quem investiu a mesma quantia nos dois ativos.

Hoje, a Eternit é uma ação fora do meu radar de possíveis investimentos, apesar de já ter sido acionista dela no passado – quando ainda era uma empresa lucrativa e boa pagadora de dividendos.

Os últimos seis trimestres foram de prejuízos e o amianto que servia de insumo para a produção de seu principal produto – as telhas de fibrocimento – foi definitivamente proibido no país depois de o STF declarar inconstitucional o artigo 2º da Lei Federal 9.055/1995, que permitia a extração, industrialização, comercialização e a distribuição do uso do amianto na variedade crisotila no País.

A companhia já anunciou que até o fim do ano que vem substituirá o uso da matéria-prima na fabricação de seus produtos.

Recentemente, li sobre a empresa:

ponto de exclamação “A R$ 1 está muito barata, boa hora para comprar”.

E você? Já ouviu algumas dessas frases?

 

 

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15 pensamentos

  1. Olá KB,
    Que baita sacada associar os ensinamentos do Peter Lynch a exemplos recentes da bovespa! Eu que sou relativamente novato já consigo identificar algumas “pérolas” proferidas na web (ex: mural Guiainvest).

    De quebra, você ofereceu uma ótima sugestão de leitura. Abraço!

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  2. Sensacional!
    Este artigo é digno de um capítulo de um livro especializado.
    Que privilégio ler algo como isso de graça.
    Cometi alguns erros nos meus investimentos. Mas um deles nao foi acompanhar uma manada que investiu em ETER.
    Obrigado e abracos.
    Investidor Mineiro.

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  3. Olá KB! A gente ouve direto isso né? Coisas que parecem impossíveis de acontecer, mas acontecem. Eu às vezes tento me colocar na cabeça de pessoas que pensam assim e se formos analisar do ponto de vista estatístico, até existe algum sentido nesse pensamento (sempre fui fã do eterno “retorno à média”, ou “retorno às condições padrões”.

    Mas a experiência nos mostra que nem sempre estamos certos, e a decisão mais sábia é aportarmos com segurança o que podemos perder, sempre tendo a consciência de que podemos estar errados.

    KB, se puder participar, como blogueiro da Finansfera, de algumas questões que coloquei hoje no meu blog, enriquecerá muito a discussão!

    Abraço e bom final de semana!

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