Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 3 – Preço/Lucro

Preço sobre Lucro, Preço/Lucro ou simplesmente P/L. Não importa a forma como o indicador é escrito e sim o que ele pode mostrar sobre a ação que você pretende comprar. O que o faz ser um dos índices mais utilizados quando o assunto é análise fundamentalista.

O economista Jeremy J. Siegel deixa claro no livro “Stocks For the Long Run” o quanto o Preço sobre Lucro pode influenciar na decisão dos investidores: “buying stocks at or below their historical valuation is the best way to guarantee superior returns”. Trocando em miúdos, comprar empresas com P/L tende a garantir maiores retornos para o acionista.

A conclusão de Siegel levou em consideração a análise do histórico de rentabilidade das ações americanas entre 1957 e 2013, segundo seu Preço/Lucro. Ele dividiu as 500 ações que compõem o S&P 500 – principal índice norte-americano – em cinco partes iguais: dos ativos com o menor P/L (teoricamente os mais baratos) até os com o maior P/L (as mais caras).

preço-lucro Siegel.JPG

Conforme vemos no gráfico acima, as ações mais baratas apresentaram os maiores retornos em 55 anos, enquanto que as consideradas caras tiveram o pior desempenho.

Quem investiu US$ 1 mil nas ações de baixo P/L em 1957 tinha ao final do período US$ 800 mil! Enquanto isso, o mesmo investimento em ações de alto Preço sobre Lucro renderia US$ 64.116 ao investidor no final de 2012. A diferença final foi de mais de DEZ vezes!

Problema: Preço/Lucro olha o passado

Não só de elogios vive o P/L. Talvez, a principal das críticas ao índice é que – via de regra – ele considera os lucros passados. Normalmente, um menor resultado ao dividir o preço atual pelo lucro líquido dos últimos doze meses da companhia significa uma ação mais barata. Certo?

Depende!

O que garante que o lucro líquido do futuro será igual ou maior do que no último ano?

Qual é a perspectiva de aumento dos lucros para os próximos anos?

O P/L atual não está distorcido por conta de um trimestre de lucros excepcionalmente bons ou ruins?

Saraiva

O índice precisa ser analisado com atenção! Tome como exemplo a empresa Saraiva – SLED3. No último trimestre de 2015, a livraria obteve uma receita não recorrente por conta da venda da Saraiva Educação – divisão que cuidava dos ativos editoriais e de ensino da companhia.

Por conta disso, o resultado do período saltou de prejuízo de R$ 13,6 milhões em 2014 para lucro líquido de R$ 194,2 milhões no ano seguinte. Hoje (antes da divulgação do resultado do quarto trimestre de 2016), o Preço sobre Lucro calculado da Saraiva é de um dos menores da Bovespa: próximo a 1! 

Apesar de parecer uma pechincha da bolsa, o investidor precisa lembrar que, assim que soubermos este resultado – previsto para o dia 28 -, esse lucro extraordinário sairá do cálculo de Preço sobre Lucro dos últimos doze meses. Com isso, o P/L da empresa tende a disparar.

Ações de crescimento e ações de valor

 Se P/L indica o quão cara ou barata está uma ação, o que justificaria algumas delas serem negociadas a Preços sobre Lucros muito mais altos do que outras?

Em geral, a expectativa de crescimento da companhia seria a principal resposta. Growth stocks – ou ações de crescimento – são negociadas a múltiplos maiores por causa da expectativa de alta nos lucros da empresa.

Uma companhia que tem valor de mercado de R$ 400 milhões e lucro líquido de R$ 20 milhões ao ano – portanto P/L 20 – pode parecer bastante cara. Entretanto, se a empresa dobrar o lucro nos próximos anos, mantido o preço, o P/L cairia pela metade.  O valor da ação deixaria assim de ser considerado uma extravagância.

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A segunda ação em peso no Ibovespa – ABEV3, da Ambev – é um bom exemplo de crescimento. Mesmo durante o período de queda de preços dos ativos em 2015, o P/L  da companhia de bebidas nunca caiu abaixo de 15. Hoje, se situa acima de 20. O mercado precifica que os lucros da empresa são sólidos e com perspectivas de crescimento.

As value stocks – ou ações de valor -, por sua vez, não carregam altas expectativas do mercado quanto ao crescimento dos lucros. Costumam ser empresas atuantes em setores com limitações ao crescimento das receitas, como concessionárias de energia elétrica e gás, de quem não se esperam grandes saltos de lucratividade. 

 Benjamin Graham e a margem de segurança

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 A margem de segurança é um dos temas centrais do método de investimento do professor e mentor de Warren Buffet, Benjamin Graham. No livro Investidor Inteligente, ele define assim:

 “(…) uma diferença favorável entre o preço, de um lado, e o valor indicado ou avaliado de outro. Essa diferença é a margem de segurança. Ela existe para amortecer o efeito de cálculos errôneos ou da falta de sorte”.

Se compararmos duas ações semelhantes, a ação com P/L mais alto embute no preço maior expectativa de crescimento dos lucros. Quanto maior o índice, mais o resultado deve aumentar apenas para justificar o preço atual e, portanto, menor é a margem de segurança.

No livro Security Analysis, escrito em 1934, Graham define:

“Hence we may submit, as a corollary of no small pratical importance, that people who habitually purchase common stocks at more than about 16 times their average earnings are likely to lose considerable money in the long run”. 

Ou seja, na regra de bolso para o mercado americano, definida há mais de 80 anos, quem compra ação com P/L acima de 16 provavelmente perderá dinheiro.

 Peter Lynch e a PEG ratio

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 Peter Lynch, o lendário gestor do fundo de investimento Magellan, que obteve retorno de 29,2% ao ano entre 1977 e 1990, também tinha sua regrinha. O Price/Earnings to Growth (PEG ratio), ou Preço/Lucro dividido pela taxa de crescimento dos lucros:

Peg ratio formula

Esta medida foi utilizada durante anos pelo gestor para selecionar as ações de seu fundo. Segundo Lynch:

“The P/E ratio of any company that’s fairly priced will equal its growth rate.  I’m talking about growth rate of earnings here.”

O que significa que uma ação com preço justo tem PEG ratio igual a 1. Ações com PEG ratio menor do que 0,5 são consideradas pechinchas por ele, enquanto que aquelas com o índice maior que 2 estão muito caras.

 A lógica é que quanto maior o Preço/Lucro da empresa, maior deve a expectativa de crescimento dos lucros para compensar o índice mais alto. Quando o crescimento esperado supera o P/L, temos uma boa oportunidade de investimento.

Escolha da ação

Grazziotin

Na definição da empresa a ser investida segundo o critério preço/lucro, tentaremos respeitar os critérios de Graham e Lynch:

  • Comprar uma ação com certa margem de segurança. Assim, caso nossa avaliação esteja otimista demais, o potencial de perda é reduzido.
  • Comprar uma ação em que o crescimento dos lucros esperado é maior do que preço/lucro, ou seja, com PEG ratio menor do que um.

A ação da Grazziotin, varejista com atuação na região Sul do país, respeita o critério de margem de segurança.

A empresa é uma das poucas negociadas na Bovespa que não possuem dívida. De fato, a firma possui em caixa mais de um terço de seu valor de mercado.

Além disso, em nenhum trimestre nos últimos dez anos a Grazziotin apresentou prejuízo nas operações. O preço/lucro atual da companhia por volta de 6,5. Portanto, menos do que a metade da regra de bolso definida por Graham.

A CGRA4 também atende ao critério PEG ratio de Lynch. Em seu famoso livro One Up On Wall Street, o autor sugere que, caso seu corretor não possa estimar o crescimento dos lucros, você mesmo pode fazer isso olhando para o crescimento dos lucros no passado.

A ideia é que estimar a taxa de crescimento dos lucros líquidos de uma empresa é uma tarefa hercúlea. A probabilidade de erro é enorme. Por isso, caso não haja motivos para desacreditá-la, a taxa histórica de crescimento é uma estimativa razoável.

Em 2006, a Grazziotin apresentou lucro de R$ 16,1 milhões, enquanto que neste último ano a companhia quase quadruplicou o resultado: R$ 64 milhões. Portanto, a taxa de crescimento histórica, que utilizaremos para calcular PEG ratio, é de 15%.

Peg ratio.png

Segundo Lynch, o PEG ratio de 0,43, calculado para a Grazziotin, é considerado um ótimo indicador fundamentalista.

Escolhemos a ação preferencial da empresa – CGRA4 –, pois a ordinária – CGRA3 – não atende ao critério de liquidez definido para a Carteira KB (volume diário negociado mínimo de R$ 50 mil).

Essas características justificam a escolha da ação CGRA4 para compor nossa carteira fundamentalista – a Carteira KB –, que pode ser conferida aqui.

Abaixo, você pode ler os outros textos da série:

Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 1 – Dividendos

Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 2 – Margem Líquida

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10 comentários sobre “Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 3 – Preço/Lucro

  1. Felipe 19 de outubro de 2017 / 21:35

    Oi KB!

    Desculpe a pergunta, mas qual o cálculo feito para chegar ao denominador 15 no exemplo de PEG ratio da Grazziotin?

    Abs.

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    • KB Investimentos 20 de outubro de 2017 / 08:35

      Oi Felipe,

      Tranquilo. No denominador preciso usar a taxa de crescimento dos lucros líquidos.
      O cálculo é: 64 milhões / 16,1 milhões = 3,98. O lucro líquido quadruplicou em dez anos.
      A taxa que quadruplica uma aplicação nesse período é 15%. Ou seja, a raiz décima de 4 é igual a aproximadamente 1,15.

      Abraço.

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      • Felipe 27 de outubro de 2017 / 17:09

        Como devemos considerar as ações com PEG ratio situado entre 1 e 2? Ações a preço justo seriam aquelas com PEG ratio entre 0,5 e 1?

        Abs.

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        • KB Investimentos 28 de outubro de 2017 / 00:05

          Oi Felipe,

          Quanto menor o PEG ratio, melhor.
          Se for abaixo de 0,5 é sinal de que a ação pode ser uma pechincha.
          PEG ratio = 1 seria o preço justo. Acima de 2 é considerada cara.

          Abraço.

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          • Felipe 29 de outubro de 2017 / 00:18

            Oi KB,

            Sobre o PEG ratio, vi na área de membros do Daniel Nigri uma tabela que complementou a informação. Conforme abaixo:

            “Índice PEG entre 0 e 0,5 – empresa muito barata
            Índice PEG entre 0,5 e 1,0 – empresa barata
            Índice PEG entre 1,0 e 2,0 – empresa normal
            Índice PEG acima de 2,0 – empresa cara.”

            Abs.

            Curtido por 1 pessoa

  2. Rodolfo Oshiro 28 de março de 2017 / 10:01

    KB,

    Na minha opinião, PL é interessante de dar uma olhada … mas pra mim não serve como parametro muito relevante de analise.. pq por ex setores diferentes tem pls muito diferentes… monopolios … etc … mas não deixa de ser mais um dado a ser comparado …

    Abs,

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    • KB Investimentos 29 de março de 2017 / 23:35

      Rodolfo,

      Eu também acho a comparação entre P/Ls mais válida entre empresas do mesmo setor. Mas, além disso, eu utilizo para me afastar dos setores da moda em que todas as firmas estão com P/Ls muito altos.

      Abraço.

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