Montando uma carteira de ações fundamentalista–Parte 1–Dividendos

dividendos

Amor pelos dividendos. Essa é a característica que une os dois maiores investidores individuais da Bovespa, Lírio Parisoto e Luiz Carlos Barsi, e que fará parte da nossa estratégia para montar uma carteira de ações de sucesso.

A tática adotada por esses homens tão admirados no mundo dos investimentos nunca foi segredo para ninguém. Barsi sempre foi taxativo ao ser questionado sobre o critério utilizado ao escolher as ações. “Eu dou preferência ao yield (dividendo). Escolho empresas que pagam um bom dividendo”, sinalizou o bilionário, que começou a adquirir ações com o objetivo de ter uma carteira previdenciária lastreada em dividendos e juros sobre o capital próprio.

O mesmo revelou Parisoto em entrevista ao jornal Valor Econômico de 2011. “O segredo do mundo é viver de dividendos, a valorização é só um plus. O importante é investir em empresas que pagam dividendos acima da média. É verdade que, quando a bolsa de valores sobe, esses papéis sobem menos, mas quando ela despenca, eles se depreciam menos”, disse o médico.

Enquanto a distribuição de dividendos é boa para os bilionários brasileiros, ela é abominada pelo investidor mais rico e famoso do mundo, Warren Buffet. Ele é declaradamente contra essa estratégia e se orgulha pelo fato de sua holding de empresas – Berkshire Hathaway – ter pago dividendos pela última vez em 1967.

O economista prefere utilizar os recursos para investir em suas empresas a fim de aumentar a eficiência, expandir mercados e diferenciar seus produtos

Você deve estar se perguntando: como estratégias opostas podem resultar em muitos bilhões?

As diferentes características utilizadas no mercado. Se nos Estados Unidos a tática de Buffet é vantajosa, no Brasil a mesma prática não teria tanto sucesso.

Vamos aos pontos:

  • Não tributação sobre dividendos

Apesar de soar natural para nós, não pagar dividendos sobre os lucros distribuídos pelas empresas trata-se de uma anomalia entre os países mais desenvolvidos. É o que revelou o estudo publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo, ligado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.  De acordo com a pesquisa, entre todos os 34 países pertencentes à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), apenas a pequena ex-república soviética da Estônia não tributa os dividendos, como no Brasil.

A título de curiosidade, a taxa média cobrada nos EUA é de 28,52%. Nesta tabela da OCDE, é possível consultar a taxação sobre dividendos cobrada nesses países.

  • Altos retornos em renda fixa

Quando recebemos dividendos das empresas, optamos por gastar ou reinvestir os recursos. Diferentemente dos Estados Unidos, aqui podemos aplicá-los a riscos baixíssimos em títulos dos governos a taxa reais superiores à 5% ao ano. Assim, na balança que mede os benefícios e custos de investir ou distribuir dividendos no Brasil pende a última opção.

É preciso que o investimento analisado tenha retorno esperado, considerando o risco e o pagamento de impostos, maior do que as altas de juros reais tupiniquins.

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”

Ao auferir o lucro, a empresa basicamente decide entre reinvestir, reter os lucros, usar os recursos para recomprar suas ações ou distribuir aos acionistas.

Como sócio da empresa, cada investidor tem direito a uma parcela dos lucros da companhia, mas cabe à diretoria analisar as opções de investimentos disponíveis e decidir se o retorno do capital investido será maior do que o custo de oportunidade dos recursos.

Quando o retorno esperado dos reinvestimentos não atinge um patamar suficiente para compensar o risco é preferível que a empresa:

  1. retenha os lucros para pagamentos de dívidas futuras ou formação de caixa para reinvestir em outros períodos
  2. recompre suas próprias, caso o preço de mercado esteja excessivamente deprimido
  3. distribua seus lucros aos acionistas sobre a forma de dividendos

No entanto, há evidências de que empresas brasileiras tendem a reinvestir seus lucros além do recomendado, gerando perdas para seus acionistas.

Nesta tese de doutorado defendida na FEA-RP – USP, que analisa o mercado de ações brasileiro, “constatou-se que grande parte das companhias apresentaram elevados níveis de sobreinvestimento no período [analisado], provocado pela retenção do FCLA [Fluxo de Caixa Livre do Acionista], e que este problema pode ter sido a causa de uma Taxa de Retorno da Ação menor em alguns setores”.

Para evitar esse tipo de companhia, devemos procurar por empresas que investem apenas em projetos altamente lucrativos e evitam aventuras pouco promissoras. Assim, em geral, é preferível ser acionista de uma empresa estável e pagadora de dividendos à se tornar sócio de vendedora de sonhos.

Escolha da ação

taesa

A primeira ação escolhida para compor nossa carteira fundamentalista é a TAESA – Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. Trata-se de uma empresa exclusivamente dedicada à construção, operação e manutenção de ativos de transmissão, com aproximadamente 9.803 km de linhas em operação.

A unit – TAEE11 – composta de uma ação ordinária – TAEE3 – e duas ações preferenciais –TAEE4 – possui volume de negócios diários na casa das dezenas de milhões de reais. A empresa apresenta índice preço/lucro abaixo de 8, preço/valor patrimonial abaixo de 2, ROE (retorno sobre patrimônio líquido) maior que 20% e margens líquidas superiores a 50%. Além disso, é notável a tendência de crescimento na receita líquida e lucro líquido nos últimos anos.

taesa-2

Para selecionar a ação da carteira, excluímos:

  1. Empresas que pagaram dividendo extraordinário no último ano, inflando artificialmente o dividend yield (dividendo pago / lucro líquido) dos últimos 12 meses, como Fibria (papel e celulose) e Comgás (gás).
  2. Ações com volume médio negociado muito baixo, pois qualquer compra ou venda pode afetar substancialmente o preço. Assim, cortamos Afluente (energia elétrica), por exemplo, que negocia, em média, menos de R$ 10 mil diariamente.
  3. Ações altamente endividadas pelo maior risco que representam ao investidor, tais como a Braskem (químicos).

Abaixo, você pode ler os outros textos da série:

Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 2 – Margem Líquida

Montando uma carteira de ações fundamentalista – Parte 3 – Preço/Lucro

 

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4 comentários sobre “Montando uma carteira de ações fundamentalista–Parte 1–Dividendos

  1. Anônimo 11 de fevereiro de 2017 / 20:29

    k B INVESTIMENTOS,a com gás tem histórico muito bom de pagamentos de dividendos. Além de ser uma empresa ótima em termos de lucratividade.

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    • KB Investimentos 13 de fevereiro de 2017 / 16:45

      Oi Anônimo,

      Concordo com você: a Comgás é ótima em termos de lucratividade. Nos últimos dez anos, nenhum trimestre de prejuízos.
      Quanto aos dividendos pagos, ela é tradicionalmente uma das melhores da Bovespa, junto com a Taesa.
      Mas, neste último ano (2016), ela se superou e pagou dividendos extraordinários em virtude de distribuição de lucros acumulados de anos passados. Por isso, o dividendo distribuído chegou a quase um quarto do valor da ação. É pouco provável que isso se repita nesse ano ou no próximo.
      No começo desse mês, portanto depois de escrevermos o artigo, mas antes do seu comentário, incluímos a ação na Carteira KB (fevereiro/2017).

      Abraço.

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  2. Ábaco Líquido 17 de novembro de 2016 / 20:35

    Tenho esta empresa em carteira, é uma verdadeira vaca leiteira, rs. Tinha a Congas também, mas nesta última alta acabei vendendo tudo. Estou posicionado na Fibria mais como hedge indireto de dólar.
    Abraço!

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    • KB Investimentos 18 de novembro de 2016 / 15:50

      De fato, Fibria tem se mostrado uma bela empresa para se proteger do aumento do dólar. Tem bons indicadores fundamentalistas, exceto pela dívida bruta quase igual ao patrimônio líquido. Só não a escolheria sob o critério de altos dividendos.
      Abs,

      Curtido por 1 pessoa

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